antanho
quando estava no século passado
eu achava muito antigo
o meu avô,
afinal,
tinha ele nascido em outro século.
depois,
quando houve a mudança do milênio,
meu avô ficou antigo mais um pouco
e eu...
...eu achei melhor não achar nada...
maria augusta de medeiros
Se eu já tenho um sofrimento 'pra sempre'?.. Talvez seja meio cedo pra afirmar. Mas sei bem como é o momentoque a dor é tão grande que sentimos que o tempo não passa. Tudo fica estagnado - menos a tal dor, que cresce como pão. Nào passa, não passa, não passa. É exatamente nessa hora que é "infinito enquanto dure", que não adianta pra que lado olhemos, ou a profundidadeda inspiração, ou a velocidade da respiração... nem mesmo dormir serve de consolo (antes do sono a gente pensa um monte). Parece até que o sono é um estado de latência da dor, e quando despertamos, ela volta com tudo e mais um pouco.
O choro é freqüente. Escondidinho, baixinho, madrugada adentro. Quando amanhece, levantamos, lavamos o rosto e tentamos seguir em frente. Mesmo porque, numa hora dessas, não há nada a ser feito, nada faz sentido e morrer é só um verbo.
Tenho medo deamar, de me entregar. Acho que meu mundinho seria completamente tragado se eu perdesse o objeto alvo do meu amor. Não sou chegada a correr riscos, e esse é um muito além das minhas mais altas apostas - por enquanto.
Fico imaginando a dor dos viúvos, dos órfãos. Pior: das mães que perdem seus filhos. A merda da hiper-sensibilidade me faz 'sentir'. Pô, eu cresci vendo a vovó Therezinha chorar todo dia a morte do tio César. Não, obrigada, eu não quero essa dor pra mim. (Isso tá piegas, mas quem não tem seus momentos de pieguisse que 'atire a primeira pedra'...)
Tenho muito medo de ter cometido algum grande erro - com alguém - de que eu vá me arrepender pelo resto do tempo. Esse tipo de sentimento é aquele que, quando menos se espera, de repente, vê alguma coisa, escuta qualquer som, toca algo, sente um cheiro e... está lá, pronto,bem grande à nossa frente, ocupando toda a visão: a pessoa, o fato, tudo. Dá um nó ligeiro na garganta. Recuperamos a pose e vambora que o trem tem que correr.
E quem disse que a 'imagem' é prontamente eliminada? É só algo com o qual temos que aprender a conviver, tentar - até mesmo - ignorar, se for possível (e não é, absolutamente).
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