terça-feira, novembro 25, 2014

O cão preto, a intransigência e o cansaço

Dia desses eu vi um vídeo no facebook que chamava a depressão de "cachorro preto". Um cão preto que só faz aumentar, e que se a pessoa que sofre conversar sobre ele, diz que melhora e o cão preto diminui seu tamanho. Achei a analogia fantástica. Quando era mais nova eu achava que a depressão era uma estado de não existência, que até os pensamentos ficavam imersos numa luz branca e você se imergia nela, diminuia seu tamanho até deixar de existir. Acho que o cachorro preto do vídeo faz mais sentido.


Na época fazia pouco tempo que meu primo cometera suicídio. E este fato me afetou (e afeta) de maneira especial. Digo isso porque não éramos as pessoas mais próximas, ele era primo do meu pai na verdade. Mas tínhamos conversas frequentes pela internet, enquanto ele curtia insônia/bebia uísque/corrigia provas e eu estava de plantão. Era alguém que eu tinha afeto distante e admiração, daquelas pessoas que você sempre planeja se tornar mais próxima, mas por inumeráveis motivos (mentira! eu sempre planejo essas coisas e deixo para lá porque tenho preguiça de me empenhar, porque não acho que as pessoas mereçam ter que conviver comigo, porque não acho que eu ou a pessoa realmente acrescentaria...), sempre fica para depois - como naquelas conversas com velhos conhecidos que terminam em "a gente se vê... eu te ligo pra marcar... vamos fazer alguma coisa..." e sempre fica para depois. O fato é que quando ele morreu, o "suicídio" se tornou mais palpável, algo real e não que se ouviu falar.

Eu fico imaginando o tamanho da dor que a pessoa sente para chegar ao ponto de acreditar que o alívio da morte é o único desfecho. Calcule o sofrimento de alguém que prefere deixar de existir a continuar sentindo agonia a cada batimento cardíaco. Há quem os chame (os suicidas) covardes. Mas eu prefiro achar que covarde é uma adjetivo que não e aplica. No caso.

Tudo isso eu pensei no caminho de volta para casa, porque eu não tolero mudanças, não tenho a tal resiliência necessária para a felicidade, sou intransigente e provavelmente me vitimizo o tempo todo. Não que consiga evitar. Quando dou por mim já está tudo reverberando infinitamente na minha cabeça. Lembro de aulas de psiquiatria - os pensamento automáticos negativos. É como uma obsessão sem objetivo. Fica repassando o momento ruim até que todos ou outros, os bons, tenham se apagado da memória, percam totalmente o sentido. Só o que é ruim permanece. O problema, aqui, é que desde a morte do meu primo, eu considero deixar de existir com mais frequencia do que é saudável. Deixar de existir significa que essa sensação de inadequação vai desaparecer junto comigo. A eterna sensação de que eu não pertenço a esse mundo, de que nada disso faz sentido, que sou inútil. Minha intransigência me irrita. MUITO. Minha existência me cansa, e eu cansei de me sentir cansada. 

Alguma vez na infância eu ouvi dizer que "quando você se sente cansado, na verdade só está cansado 25%". A pergunta é: quando você sabe que já passou desses 25% então?


segunda-feira, março 31, 2014

A preguiça

 

Eu tenho/sofro duma preguiça existencial. Uma vez uma psicóloga me disse (e fiquei de fato surpresa) que eu tinha medo de viver. Encaro sempre dizendo que é preguiça. Porque ter medo é coisa de gente frescurenta.

Somente a pouco (coisa de um mês, se tanto) descobri que “poha! Sou introvertida!” – porque não parece mesmo. Na medida em que falo pelos cotovelos quando quero e não tenho muito pudor de nada – tipo dizer que tenho diarreia crônica e se saio correndo é para cagar e que “mijo” também com certa frequência... Pois veja bem, aqui me explico: fazer xixi é coisa de mocinha. Imagine uma situação. Você vai sair de casa, e não tem como ter certeza de quando será possível frequentar um banheiro decente, você vai ao banheiro antes de sair (de casa) fazer um xixizinho profilático. Mas, ao contrário, quando a urgência é grande e foda-se a condição sanitária do banheiro, você solta um mijão, daqueles com todas as letras maiúsculas, que faz barulho mesmo – um jato de urina que te deixa feliz E satisfeita de ser capaz de tal ato masculino – mas nem precisa ser em pé, poxa vida! Tudo isso só pra explicar que não “pareço” introvertida. Mas só que eu sou. Tenho preguiça de sair de casa, de atender telefone, de me socializar com desconhecidos – vão todos à merda, ora bolas, não preciso de mais ninguém participando da minha existência.

Aí que a preguiça impera, né. Tudo me pergunto “pra quêêê?”

“Pra que me explicar?”

“Pra que pedir desculpa, se a palavra dita já foi ouvida e foda-se não preciso de fulano mesmo...”

“Pra que fazer agora se foda-se o depois o mundo vai acabar mesmo e nada significa porra nenhuma?”

Um universo de “pra que(s)” dominam meus dias na Terra e justificam toda a preguiça do meu ser.

O exemplo mor da introversão é que ODEIO quando não posso voltar pra casa nenhum momento durante o dia. Acaba com minha existência pacífica, fode de vez com meu humor. Desejo ardentemente que todos explodam, porque raios me incomodam tanto? CÉUS! E eu só queria ficar 15 minutos em silêncio comigo mesma – no máximo os cachorrinhos por perto (porque ou eles entendem totalmente ou não importa, o fato é que ficam quietos e me amam em silêncio). Preciso da TV ligada, de algum ruído de fundo que seja completamente impessoal, mecânico (daí o rádio, música, TV). Pra ter tempo de reorganizar a insignificância da minha existência e aguentar o resto do dia sem berrar nem matar ninguém.

Tem quem chame depressão. Eu prefiro preguiça. Não sei se um dia vou deixar de me sentir cansada. Mas também não importa, desde que tenha pequenos momentos de recarregar a tolerância.