Na época fazia pouco tempo que meu primo cometera suicídio. E este fato me afetou (e afeta) de maneira especial. Digo isso porque não éramos as pessoas mais próximas, ele era primo do meu pai na verdade. Mas tínhamos conversas frequentes pela internet, enquanto ele curtia insônia/bebia uísque/corrigia provas e eu estava de plantão. Era alguém que eu tinha afeto distante e admiração, daquelas pessoas que você sempre planeja se tornar mais próxima, mas por inumeráveis motivos (mentira! eu sempre planejo essas coisas e deixo para lá porque tenho preguiça de me empenhar, porque não acho que as pessoas mereçam ter que conviver comigo, porque não acho que eu ou a pessoa realmente acrescentaria...), sempre fica para depois - como naquelas conversas com velhos conhecidos que terminam em "a gente se vê... eu te ligo pra marcar... vamos fazer alguma coisa..." e sempre fica para depois. O fato é que quando ele morreu, o "suicídio" se tornou mais palpável, algo real e não que se ouviu falar.
Eu fico imaginando o tamanho da dor que a pessoa sente para chegar ao ponto de acreditar que o alívio da morte é o único desfecho. Calcule o sofrimento de alguém que prefere deixar de existir a continuar sentindo agonia a cada batimento cardíaco. Há quem os chame (os suicidas) covardes. Mas eu prefiro achar que covarde é uma adjetivo que não e aplica. No caso.
Tudo isso eu pensei no caminho de volta para casa, porque eu não tolero mudanças, não tenho a tal resiliência necessária para a felicidade, sou intransigente e provavelmente me vitimizo o tempo todo. Não que consiga evitar. Quando dou por mim já está tudo reverberando infinitamente na minha cabeça. Lembro de aulas de psiquiatria - os pensamento automáticos negativos. É como uma obsessão sem objetivo. Fica repassando o momento ruim até que todos ou outros, os bons, tenham se apagado da memória, percam totalmente o sentido. Só o que é ruim permanece. O problema, aqui, é que desde a morte do meu primo, eu considero deixar de existir com mais frequencia do que é saudável. Deixar de existir significa que essa sensação de inadequação vai desaparecer junto comigo. A eterna sensação de que eu não pertenço a esse mundo, de que nada disso faz sentido, que sou inútil. Minha intransigência me irrita. MUITO. Minha existência me cansa, e eu cansei de me sentir cansada.
Alguma vez na infância eu ouvi dizer que "quando você se sente cansado, na verdade só está cansado 25%". A pergunta é: quando você sabe que já passou desses 25% então?
Nenhum comentário:
Postar um comentário